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A força das palavras diante dos números

Os números se apresentam como juízes frios da realidade. Exatos, silenciosos, impessoais. Dizem quanto, quando, onde, em que proporção. Parecem sólidos como pedras. As palavras, ao contrário, parecem leves, voláteis, sujeitas ao erro e à manipulação. Mas é justamente nelas que o mundo humano ganha forma.

Um número informa. Uma palavra organiza o sentido do que foi informado.

“3,2% de inflação” é um dado. “O custo de vida está sufocando as famílias” é uma experiência social traduzida em linguagem. O primeiro cabe numa planilha; o segundo entra na conversa da cozinha, na manchete do jornal, no discurso político, na memória coletiva.

Os números delimitam o terreno. As palavras decidem a batalha.

É por isso que quase nenhuma disputa pública é, no fundo, sobre estatística. Ela é sobre o nome que se dá à estatística. Déficit ou investimento? Reforma ou desmonte? Operação policial ou chacina? Crescimento ou concentração? A aritmética muda pouco; o mundo muda quando a narrativa muda.

Sem palavras, os números são mudos. Não produzem medo, nem esperança, nem indignação, nem conformismo. Não convocam ninguém a agir. Precisam ser traduzidos para o idioma dos afetos.

E é aí que reside sua força política.

As grandes transformações nunca começaram com uma tabela. Começaram com frases. “Terra, pão e paz.” “Direitos civis.” “Liberdade.” Palavras curtas, imprecisas, mas capazes de reorganizar milhões de percepções ao mesmo tempo. Depois vieram os números — para justificar, administrar, controlar, legitimar.

Vivemos numa época que proclama obediência aos dados. Mas quem governa de fato é quem controla o vocabulário. Quem decide se um número será lido como tragédia, como sacrifício necessário ou como sucesso técnico.

Os números impõem limites à fantasia.As palavras constroem o horizonte dentro desses limites.

Talvez por isso temamos tanto a mentira estatística, mas sobrevivamos diariamente à mentira verbal. Porque é com palavras que se normaliza o inaceitável, se suaviza a violência, se vende a perda como ganho, se transforma exceção em regra.

No fim, não escolhemos com base em números. Escolhemos com base em histórias que os números ajudam a contar.

A matemática descreve o mundo.A linguagem decide que mundo esse será.

 
 
 

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